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A mãe não dorme

Mãe que não dorme e que vai trabalhar todos os dias com outros filhos, os alunos! Professora contratada, eternamente contratada! Subscrevam o blog e vamo-nos lendo por aqui!

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A mãe não dorme

29
Nov20

O Natal aqui tem mais brilho...


Vera Garcia

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Não era para ter sido hoje, mas sim no dia 1 de Dezembro, mas a magia, a fantasia e as fadas fizeram uma forcinha e pediram muito à fofinhicas para fazer a árvore de Natal. Entre risinhos de euforia, uma bola aqui, uma bola ali, as luzes e a magia a acontecer, de repente fui puxada para trás, numa espiral do tempo e vi-me, novamente, com o cabelo curto e apanhado com umas molas, uma blusa verde e uma saia ao xadrez, na sala da minha avó Lili...a árvore de Natal tinha tanto brilho, que ofuscava! Na minha cara desenhava-se um sorriso rasgado e as bochechas estavam vermelhas, quentes, de contentamento e do calor que vinha da lareira, onde crepitavam os paus, as pinhas...vó, aqui o Natal tem mais brilho! - dizia-lhe eu, abraçada a ela e sentindo o cheiro daquele casaco de malha, velho, que ela usava por casa...

Vó, escuta lá no céu, as fadas deitaram pózinhos de magia no ar, a fofinhicas soprou e acendeu-se o Natal, outra vez...

28
Nov20


Vera Garcia

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Ela chegou a casa, fechou a porta, dirigiu-se ao sofá e deixou-se cair sobre ele, num suspiro aliviado. Alguns segundos depois, puxou o fecho das botas e descalçou-se, como se cada bota pesasse uma tonelada de preocupações e trabalhos. Sentiu o tapete macio por baixo dos seus pés. Virou-se, deitou as pernas pesadas sobre as almofadas do sofá e inspirou profundamente...soltando devagar todo o rebuliço de uma semana inteira. Sentiu uma leveza e uma certa dormência a percorrerem os seus ombros, a barriga, as pernas. No seu mais profundo egoísmo, agradeceu por a deixarem estar só, naquela contemplação do nada, do silêncio, de paz. Fechou os olhos por breves instantes...levantou-se lentamente e despiu pensamentos, ansiedades, cansaços. Abriu a torneira e deixou a água correr livremente, aquecendo aos poucos aquele corpo meio entorpecido. O vapor da água quente distorcia no espelho os seus contornos e escondia as marcas tatuadas de caminhos sinuosos e de guerras travadas. Os seus pés tocaram a água tépida e ela mergulhou naquele abraço quente e consolador...

26
Nov20

Este sistema de ensino que lhes rouba a infância


Vera Garcia

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Hoje dei teste às turmas de 3o e 4os anos. Teste de inglês. Teste. Numa das turmas de 4o ano, a aluna mais ponderada, metódica, educada e descomplicada desatou a fazer uma série de perguntas desnecessárias acerca do que se pedia no enunciado. Ela, problemas de interpretação? Incrível. No entanto, a ela juntaram-se tantos outros e eu, já irritada e sabendo do nível da ficha de avaliação que tinha realizado, respondi num tom pouco simpático. Num ápice, esta criança começou a chorar, soluçando de nervos, tremendo de alto a baixo. Após uma breve conversa, que a acalmou, deixei-a resolver o teste em paz. Teve 100%, como sempre teve.

Ontem, constatei que uma outra criança que frequenta um colégio privado e se encontra no 1o ano, no espaço de uma semana, iria ter teste de Português,  Matemática,  Estudo do Meio, Expressões e Inglês. Teste. Testes. E testes de inglês, que nem sequer curricular é no primeiro e segundo anos. A criança estava aflita e aflita estava a mãe que, depois de sair do trabalho, ainda tinha de ir estudar com ela. Crianças aflitas no público, crianças ainda mais aflitas no privado. Depois de adultas não terão tempo suficiente para andarem aflitas? Que raio de sistema de ensino é este que massacra estes pobres coitados, horas a fio sentados na mesma cadeira, com a exigência pelos resultados? Testes! Eu não me lembro, em tempo algum, de ter estudado desenfreadamente enquanto andava no primeiro ciclo. Quando a professora entendia, punha-nos à frente uma ficha e, numa ou duas manhãs, despachávamos aquilo. Não, eu não era uma aluna exemplar. Tinha na língua portuguesa o meu ponto forte e na matemática a minha desgraça. A minha mãe é professora do 1o Ciclo. Nunca me lembro de se ter sentado ao meu lado, a estudar comigo. A escola acabava à hora de almoço e vinhamos para casa. Brincar, era o que nos fazia bem. Se eu fosse criança, agora, seria uma péssima aluna...ou seria insuportável...ou deprimida. Teria ânsias cada vez que entrasse na sala de aula, trancada lá o dia todo.

Prazer. Aprender por prazer. Ler por prazer. Aprender por curiosidade. Tudo isto contrasta com estatísticas, rankings, competição, sucesso mensurável, testes, resultados, ansiedade, formatação. Imposição. Excesso de alunos por turma. Horas a mais na escola. Obrigatoriedade em frequentar mil e uma actividades fora do horário escolar. Falta de descanso. Estímulo a mais. Menos tempo em família, em casa. Stress. Pergunto-me, ignorantemente, será que esta geração será mais inteligente, mais capaz e mais saudável do que a minha, do que a anterior à minha? Será que a extensão dos programas no primeiro ciclo formarão jovens e adultos super inteligentes? Que tipo de adultos serão as crianças que sentem agora 500 kg de responsabilidades em tirar boas notas, agradar aos pais e professores, não errar, não falhar, pouco dormir e pouco brincar?

Vivo no sistema, porque no sistema sou obrigada a viver. Tenho uma filha. Que tipo de aluna será? Que tipo de mãe serei daqui por uns anos? O que espero dela é que seja educada, tenha juízo e seja responsável. Não quero que seja a melhor. Ofereço-lhe livros, mas não a obrigo a brincar com eles. Eles estão lá, para quando ela quiser. Gostava que fosse uma leitora, por prazer, para que conseguisse ter espírito crítico e livre pensamento. Bem educada e humilde. Também ela será uma filha do sistema...que eu tenha sempre discernimento para a lembrar de que é criança. 

20
Nov20

Os Direitos das Crianças ainda por cumprir / Alienação Parental


Vera Garcia

Hoje celebra-se a Declaração Universal dos Direitos das Crianças. Ainda assim, os direitos das crianças continuam por cumprir. Nem todas têm direitos, quando têm a infelicidade de nascer em países onde impera o Deus Dinheiro, o Deus Armas, o Deus Religião. A estas crianças são-lhes retirados os princípios básicos de sobrevivência, como um lar, alimentação, cuidados de saúde, educação, amor. Por aqui, na República Portuguesa, vamo-nos queixando da invasão de refugiados, famílias inteiras que nos aparecem a deambular. Não queiramos estar nos seus chinelos ou nos seus pés descalços. Por aqui, nesta República Portuguesa, também temos miséria e tão escondida, por detrás de uma antiga classe média que, de tão baixa que já está, tem vergonha de admitir a falta de dinheiro para pagar contas, impostos, comida! As crianças...se todos os governos do mundo pensassem nas crianças, não deixariam nem uma só passar fome, ser maltratada!...

Há quinze anos que a minha vida são as crianças e, como todos os professores, educadores, auxiliares, ouvimo-las diariamente e, às vezes, nem é preciso que digam alguma coisa. Basta olharmos dentro dos seus olhos, porque olhos de criança não mentem. Princípio 6o: "A criança precisa de amor e compreensão para o pleno e harmonioso desenvolvimento da sua personalidade. Na medida do possível, deverá crescer com os cuidados e sob a responsabilidade dos seus pais e, em qualquer caso, num ambiente de afecto e segurança moral e material". De entre as dezenas de turmas que já tive, muitos são os filhos de casais separados/divorciados. Apesar da tristeza inicial, a sensação de o chão desabar e do "para onde vou?", as coisas tendem a ser relativizadas e encaradas naturalmente quando ambos os pais se entendem mutuamente, se respeitam e se unem para sempre em prol de um único objectivo, os filhos, mesmo cheios de recalcamentos, frustrações e desilusões. O bem estar emocional e material dos filhos é a única coisa que importa. Uma união infeliz não tem, nem deve ser para sempre. Os filhos são. A alienação parental é, a meu ver, o atentado mais silencioso que a família pode fazer contra uma criança. Ter discursos perante a criança de ódio, maledicência e humilhação para com o pai ou mãe é caminho andado para causar distúrbios psicológicos na criança, inseguranças infundadas, medos, ansiedades, baixa auto-estima e manipulações desnecessárias. E nem sempre isto acontece por parte do pai ou da mãe. Pode acontecer por parte dos avós, tios, etc. Numa separação há sempre um lado que sai mais magoado do que o outro, mas quando há filhos no meio, nenhum pai ou mãe tem o direito de acusar ou dizer mal do outro à frente da criança, independentemente de todos os defeitos que possam ter, um e outro. Um dia, mais tarde, estas crianças de hoje terão entendimento, percepção para fazerem os seus próprios juízos de valor, sem a necessidade de crescerem a odiar o próprio pai ou mãe ou a família nova que o pai ou a mãe construiram. 

Será que vale tudo para descarregarmos os nossos ódios pessoais, as nossas frustrações e impormos a nossa vontade, as nossas vinganças? ...

A imagem foi retirada da net https://www.google.com/search?q=aliena%C3%A7%C3%A3o+parental&client=ms-android-samsung-gj-rev1&prmd=inv&sxsrf=ALeKk01l4vq_iZ4t50Nq1GAbdWuHh0ohEw:1605867281025&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=2ahUKEwiFxN3m8ZDtAhXF8uAKHXflAMkQ_AUoAXoECB8QAQ&biw=360&bih=647&dpr=2#imgrc=pAyjnQiJGAwWFM

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19
Nov20

Pus o dedo no nariz do vírus e franzi-lhe o sobrolho


Vera Garcia

Imagem retirada da net.

A Kiki veio ao mundo igual ao pai, com o feitio da mãe. Ela é bonita, esperta, obstinada, inteligente, teimosa, perspicaz, muito tímida na primeira hora de contacto, uma espalha-brasas a seguir! Ela não faz amizades facilmente, é desconfiada, franze o sobrolho, como a mãe. É bicho do mato, gosta das galinhas, do cão e de cavar na horta com o avô, cheia de terra até aos joelhos. Manda nas galinhas e no cão, que lhe obedecem fielmente. O que tem de brava, tem de sensível. É extremamente sensível aos livros, histórias e música, desde que nasceu. Muito pouco dada a contactos e amizades com os outros, este vírus quase que a afastaria ainda mais. Eu própria, mãe dela, quase que caía no erro de a afastar, de a proteger, no mais âmago egoísmo de progenitora que protege a cria. Por ser bicho do mato. Por ser desconfiada. Por franzir o sobrolho, como ela. Embora o meu coração saltasse cada vez que uma criança se aproximasse dela, para brincar, quando estoirou esta pandemia e nos encheram a cabeça de medos, controlei-me sempre para nada lhe dizer e deixá-la brincar, naturalmente. Não queria que, aos 3 anos, começasse a viver com medos e aterrorizada. Porque as crianças sentem e percebem tudo. Nós, adultos, é que temos a prepotência de achar que estes seres minúsculos não entendem nada. Erro crasso.

Ontem, ao entrarmos no carro, apareceu a Fafá, com os pais. A Fafá é uma menina lá do bairro, que anda na escola com a Kiki. Em poucos minutos, andavam de mão dada, aos saltinhos, a conversarem, alegremente, no quintal e no meio da rua! A Fafá tem sete meses a mais e é altíssima! A Kiki tem sete meses a menos e é bebecas! A Fafá protege-a, porque se acha uma senhora crescida! A Kiki deixa-se proteger e dá a mão à Fafá porque diz que ela é boazinha e "cuida da Kiki"! No final, a Fafá deu-lhe um beijinho na testa e disseram adeus, até amanhã. São amigas que o bairro juntou, a escola tanto ajudou e o vírus não vence as batalhas todas!

Quantas crianças afectadas psicologicamente por este vírus maldito, que atira as pessoas para os hospitais, outras para os Cuidados Intensivos e a outras lhes provoca pânicos, ansiedades, medo. Quando deixamos que o medo invada a nossa mente, todo o nosso quotidiano fica afectado, as nossas relações com os outros, a nossa linha de pensamento vira-se para dentro e torna-se mesquinha, medrosa. Há muitas crianças a sofrerem de ansiedade, e esse mal é coisa de adultos e não devia ser de crianças! Culpados somos nós, que lhes transmitimos o vírus medo, o vírus mesquinhez, o vírus afastamento. Entupimo-las do que não é saudável e vamos cegamente contra a natureza do ser humano, que nasce puro. Pela minha filha, pus o dedo no nariz do vírus e franzi-lhe o sobrolho!

17
Nov20

Bruxas dum cabr@o!!!


Vera Garcia

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Há dias que são uma paródia, só que o dia de hoje não me meteu graça nenhuma! Se não, vejamos. Lá fui eu às pressas para a escola, como sempre. Cheguei ao portão, voltei para trás, ia de pantufas. Imagino as caras dos meus alunos se me vissem chegar nestes preparos...depois de um dia a mil à hora, em que as minhas cabecinhas pensadoras mais pareciam ir a um ritmo de bicicleta a pedal, a única coisa que não me saía da cabeça era chegar à minha rica casinha, tomar uma bela banhoca e enfiar o pijama e as pantufas, claro! Fui buscar a minha fofinhicas e assim que chegámos, abri a porta e lá estava a realidade nua, crua e desarrumada! O monte de roupa crónico para passar, brinquedos pelo chão da casa toda, uma pintura rupestre no sofá branquinho e a loiça do almoço ainda por lavar e arrumar! Dentro da máquina, estava outra carga valente para estender! Aaahhhh vida dum corno, tivesse eu nascido rica! Engoli os alhos e bugalhos e resolvi comer umas belas torradas e um café, descansadinha, enquanto a madmoiselle brincava no quarto...não fosse a sacana da torradeira dar o berro! Não há problema! Pega-se no elástico do cabelo, dá-se umas voltas e voilá, alavanca presa e a torradeira a funcionar! A seguir, resolvi ir tirar a loiça lavada da máquina! Puxo o tabuleiro de cima, pimbas, parte-se aquela porcaria, desencaixam-se as outras peças, cai a loiça toda! Raios parta mas é esta grandessíssima m#$@%!!!! NÃO há problema! Nada que  um aramezinho não resolva! Umas voltas com arame e, já está, tabuleiro preso! Nem um copo se partiu e ainda dizem mal do IKEA! Vou dar banho à miúda, tudo corre bem! A seguir, eu, ah, que maravilha, nem que seja com público a assistir numa cadeirinha cor-de-rosa...água fria! Não, água GELADA! Mas a garrafa de gás foi mudada ontem! É da misturadora! Não pode, levou uma nova na semana passada! Raios parta, é do esquentador! NÃO HÁ PROBLEMA! Nada que uns porradões não resolvam!!!! Ao murro e cacetada lá o desgraçado começou a arrancar, com uns roncos atirados das profundezas! Corro para o chuveiro, água quente, aaaahhhh se eu mereço! Agarro no gel de banho com cheiro a mel e cenas doces...espremo o desgraçado, com ruídos que mais fazem lembrar o meu vizinho quando come feijoada, mas...já não há gel de banho!!! Irra, que é demais, raios parta mas é esta trapice!!!! NÃO HÁ PROBLEMA!!! Sabão macaco e acabou-se a conversa!...

16
Nov20

Pequeno almoço: sopa com alhos!


Vera Garcia

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À segunda-feira, a sopa quer alho! A manhã começou às quatro e meia de uma aurora que ainda não tinha nascido. O passarinho, que resolveu cantar de madrugada, quis ir para o ninho da sua progenitora. Assim foi, ao colo e com a almofadinha debaixo do braço, aconhegou-se livremente, com uma perna para cada lado e de braços abertos, deixando uma nesga de colchão para a sua mãe. Quando o malfadado despertador bateu as sete e meia, ela enfiou as pantufas a mil à hora e foi fazer lanches e acordar o passarinho. Primeira pergunta: mãe, hoje é segunda-feira? Sim, é.  Buaaaaaahhhhhhhh, eu quero o pijama! Buaaaaaaahhhhh, eu não quero ir para a escola! Buaaaaabhhhhhhhh!!! ... Depois de beber o leite, começou uma luta livre para vestir a roupa e ir para a escola. Que nem uma cobra de água, escorregadia e contorcida, lá lhe consegui enfiar as collants, os calções e afins! Entre a cama, o sofá, o tapete da sala, um braço enfiado na camisola interior, a correr pelo corredor, com uma perna metida nas collants e a outra de fora, lá consegui aprontá-la para mais um dia! E o pai e a turbulenta lá foram! Daí a 10 minutos teria de, impreterivelmente sair de casa! Quer alho sempre ao pequeno almoço! Enfiei-me no chuveiro, remordi as alhadas todas mais cabeludas que há, peguei numa roupa qualquer à mão e meti-me ao caminho. Cheguei à escola e ouvi assim: txitxa, você hoje vestiu a camisa do seu avô?...🙄 

15
Nov20

Era um rádio velhinho, debaixo da cama


Vera Garcia

Sim, eu sei, já deveria de estar a dormir. Em vez disso, estou aqui deitada no meu amigo sofá, companheiro de tantas insónias, analgésico de dores nas pernas e sei lá mais o quê. Estão todos a dormir e, egoisticamente, nada mais neste momento me parece mais aprazível do que estar aqui a ouvir o silêncio. De luzes apagadas, apenas o som ténue do frigorífico e da box da televisão. Sempre tive esta relação egoísta com a noite. Lembro-me quando tinha sete ou oito anos, havia lá em casa um rádio velho que o meu avô Chico tinha trazido da Alemanha e oferecido à minha mãe. Na verdade, tudo o que era música e livros eu arrecadava no meu quarto, tal como se se tratasse de um santuário só meu. O rádio velhinho, a guitarra do meu pai, uns auscultadores, as k7s dos anos 60, 70 e 80 e os livros, que carregava um a um do sótão para as prateleiras do meu quarto. Esperava que os meus pais se deitassem, coisa que ocorria por volta da meia noite. Fingia estar a dormir profundamente quando o meu pai entrava no meu quarto a fazer a ronda...lá ia ele ver se eu estava tapada e se a janela do quarto estava trancada, não fosse algum ladrão levar-me! Entre o encostar da porta do quarto, o meu pai dava exactamente 7 passadas largas, lentas até eu ouvi-lo a sentar-se na cama, a descalçar os chinelos, a esticar-se e a tapar-se com as mantas. Silêncio. Perfeito. Num ápice, enfiava os auscultadores na cabeça, ligava-os no rádio, empurrava-o para debaixo da cama, não fosse o diabo tecê-las e ficava até à uma e tal, duas da manhã a ouvir música! ... Por vezes, tinha consciência de que, daí a umas horas, a manhã ia ser muito difícil e lá estaria a minha mãe a empurrar-me as malvadas papas Nestum com mel pela boca abaixo! No fim do meu quarto ano ou quarta classe, como se dizia antigamente, a professora fez uns versos a cada um dos seus alunos. O meu dizia assim e ainda me lembro: Ei-la, que vem a chegar! Como sempre, vem atrasada! Acabou mesmo agora de entrar, / A nossa menina envergonhada!

...

13
Nov20

Risquei aquela escola


Vera Garcia

Desde 2008 que não concorro para aquela escola. Haja alguma vantagem em ser contratada. Esta, é uma delas. Foi no ano de 2007 que tive um aluno autista na turma. Sentia-me um bocado perdida e com uma falta de experiência enorme. Sentia que não estava a trabalhar bem e isso dá-me agasturas. Quando isto me acontece, arranjo maneira de me inteirar das coisas, dos problemas e, em vez de desesperar, procuro aprender com quem sabe. Interessei-me por um mundo diferente do meu mas que, também, já era meu. Voltei a estudar. Saía do Barrreiro às seis da tarde e ia para Lisboa, às sextas e sábados tirar o Mestrado em Educação Especial. Assim foi durante um ano e tal, chegar a casa à meia noite. Em 2008 comecei a trabalhar na Educação Especial, pela primeira vez, e numa Unidade de Multideficiência e Surdocegueira Congénita, naquela escola. No mestrado, tive professores geniais, autênticos mestres, que levarei para a vida. No entanto, continuo a achar que não é a teoria, mas sim a prática que nos ensina, a experiência, e a minha era zero. A juntar à inexperiência, uma timidez tremenda que, quando cai nas mãos erradas, é meio caminho andado para a humilhação. A partilhar o mesmo tecto, tinha a coordenadora da Educação Especial, responsável pela Unidade. Mulher a rondar os 50 anos, com muitos anos de experiência na Cerci, muito sensível a estas crianças/jovens, como assim deve de ser. Bipolar, diagnosticada pelo médico. Fazia recusa total em tomar a medicação. Teve episódios muito constrangedores para ela própria, na escola. Tinha em mim, que nada sabia, respeito, admiração e, no fundo, pena. Eu precisava de ajuda, precisava de aprender e, o que consegui, foi sozinha, a observar. Chegava à sala e tudo o que tinha feito com os alunos havia sido rasgado. Os Programas Educativos Individuais e os PIT (utilizando terminologia do Dec. 3/2008) desapareciam ou nunca estavam no armário ou dossier deles. Um dia, quando tocou para o almoço, um dos miúdos utentes, psicótico, quis continuar a ouvir música no computador. Disse-lhe que estava na hora do almoço e que eu ia almoçar na cantina, também. Costumava fazer isso para trabalhar as actividades da vida diária com eles. Num grito e movimento brusco, fui empurrada de costas contra um armário da sala e agarrada pelos braços. QUEM DÁ AS ORDENS AQUI SOU EU! Berrou-me aos ouvidos. Libertei-me dela, com um safanão e as minhas pernas tremiam que nem varas verdes. A partir daqui, comecei a ser perseguida, gozada, humilhada, deixada a falar para as paredes. Meti baixa de uns míseros 12 dias, comecei a tomar victans e coisas do género. ESTAS MESTRADAS...dizia constantemente, em tom sarcástico e arrastado, com um risinho fininho no fim. Claro, fiz queixa na direcção, mas a única resposta que obtive é que, antes de mim, já umas 3 ou 4 contratadas tinham tido o mesmo tratamento. Fiz queixa à Direcção Regional de Educação, que nem resposta me deu. Passou um ano, de total tortura. Ficaram-me aquelas crianças com trissomia 21, psicóse, paralisia cerebral, malformações cerebrais, atrasos graves de desenvolvimento, hiperactividade, uma auxiliar que foi uma mãe, uma equipa de terapeutas novinhas como eu e um professor que me foi avaliar e me deu Muito Bom, na percentagem máxima, pelo trabalho e pelo que eu aguentei. E no final, no dia em que me fui embora, ouvi "Bom dia, mãe", de uma menina com quem batalhei o ano inteiro para dizer estas duas coisas. Disse-me, pela primeira vez, no último dia de aulas. Abraçou-me e nunca mais a vi. Segui, de cabeça erguida até à porta da rua, e nunca mais voltei.

12
Nov20

Comichões no rabo


Vera Garcia

Era uma vez um rabo! Coitado, era esquelético e não havia calças que se segurassem no sim senhor! Era um rabo trabalhador para que nunca faltasse nem pão, nem amor! O rabo trabalhou tanto, tanto, tanto que, um dia, mesmo quando este rabo, já chupadinho das carochas, não acreditava que dias melhores viriam... fez-se luz! Afinal, existe mérito e isso existe para alguma coisa! O sol começou a brilhar e o rabo, de tão contente que estava, começou a engordar. Trocou os calções desbotados e resolveu vestir coisinha melhor. O que ele não sabia, pobre desgraçado, é que as suas calças tinham uma maldição! Algo no seu tecido, lá bem entranhado, causava urticária alheia nos rabos que por ele passavam! Que estranho, deuses dos rabos!!! Afinal aquele rabo merecia umas calcitas melhores! Não se entendia!!! Afinal eram rabos que, outrora, partilhavam as mesmas conversas... Aaahhh, rabos, que maldição! Eram comichões horrorosas! Não havia pomadinha que valesse! Não dava para esgatanhar mais! A culpa era do rabo e daquelas calças! Ahhhh, rabo traidor, seu vira-calças!!!

Conclusão: .....................o texto é tão mau, que não há conclusão possível! Ou há?

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