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A mãe não dorme

Mãe que não dorme e que vai trabalhar todos os dias com outros filhos, os alunos! Professora contratada, eternamente contratada! Subscrevam o blog e vamo-nos lendo por aqui!

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A mãe não dorme

26
Abr21

Vida precária dos Terapeutas no sistema educativo


Vera Garcia

bfea38_5c397397f05147dca00360ad1f1ab1d6.pngJá o tinha visto por lá. Atravessava o pátio com uma criança de cada vez e ia para a sala dos apoios. Percebi que era terapeuta da fala. Simpático, adivinhava-se uma cara sorridente por detrás da máscara. Eu ia passando, sempre à pressa, de uma sala para outra, aproveitando o intervalo para ir ao café da esquina respirar sem máscara, pelo caminho, sem me cruzar com ninguém. Mas hoje, hoje foi diferente. Grande parte deste momento sagrado foi passado na sala dos apoios, a fazer flores de papel para o dia da mãe. De repente, entra este rapaz. Penso que deve ter a minha idade, 38, ou mais velho, provavelmente. Meteu conversa, tratou-me por você. Respondi-lhe e tratei-o por tu, porque na escola, terapeutas e professores remam para o mesmo lado. Perguntou-me se tinha filhos, e eu disse-lhe que sim, uma sardanisca de três anos. Disse-me que também tinha, uma de quatro e outra de um ano. "Elas dormem?" - perguntei-lhe eu. "Agora, quem me dera! Levanto-me várias vezes de noite para ir fazer o biberão do leite. A mãe fica com a mais pequenina ao colo para ver se adormece. A mais velha acorda e começa a chorar também. Tenho dias que nem sei...e depois pego no carro de Alverca para aqui e faço dois Agrupamentos". Senti-me solidária para com ele e calcei-lhe os sapatos de imediato, pois conheço-lhe o desespero da privação do sono. E depois faz cerca de 160 km por dia, mais uns tantos quando passa para o outro Agrupamento em Lisboa. A maior parte dos Terapeutas da Fala trabalha com horários incompletos. Conseguem uma colocação por currículo e entrevista o que, por vezes, pode gerar casos muito dúbios...

"Como é que aguentas esta pedalada toda com duas pequeninas que não dormem, nem te deixam dormir?"...Sorriu, encolheu os ombros, fitou-me e respondeu-me "Tenho de lhes dar de comer". 

Fala-se tanto e com toda a razão sobre as condições precárias e agonizantes dos professores contratados, mas pouco ou nada se fala sobre as mesmas condições dos Terapeutas no sistema educativo.

Por que é que neste país se maltratam os que de nós cuidam e os que nos ensinam? 

24
Abr21

A condição da Mulher no pós 25 de Abril


Vera Garcia

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Hoje era para ter estado presente numa conversa, que se queria informal, sobre a condição das mulheres antes e pós 25 de Abril, numa iniciativa da Câmara Municipal de Vendas Novas, minha terra. Duas mães e as suas respectivas duas filhas...mas deixei a minha mãe sozinha, pois a minha condição foi ter estado de turno maternal durante toda a noite e, de manhã, a minha energia era totalmente nula e a cabeça parecia estoirar.

Sendo tão breve quanto possível, apraz-me dizer agora algumas poucas coisas acerca dos direitos das mulheres que continuam por concretizar. A mulher continua a ser submissa e jogada ao escrutínio de uma sociedade maioritariamente machista, que continua a condenar a mulher que ousa ter os mesmos padrões comportamentais dos homens. Se os tiver, é puta. É puta na boca dos homens e é puta na boca das próprias mulheres. A mulher continua a renunciar posições de chefia, cargos que exijam mais tempo e disponibilidade porque tem filhos e, por conseguinte, tem de ter tempo para trabalhar, voltar para casa, tratar dos filhos e da sua educação, das roupas, da limpeza da casa, etc. O homem, contrariamente, limita-se a cumprir o seu horário de trabalho e a desempenhar algumas tarefas em casa, muito inferiores às que a mulher desempenha. O homem não hesita em aceitar cargos de chefia, não hesita em estudar, não se coloca em segundo plano tão facilmente quanto a mulher. É um sistema igualitário? Não é. O homem continua a auferir salários superiores à mulher. A mulher continua a ser despedida ou a não ver o seu contrato de trabalho renovado se estiver ou pensar vir a estar grávida. É um sistema igualitário? Não é. A mulher continua a ser vista como objecto sexualizado, muitas vezes vítima de assédio no próprio local de trabalho, calada por vergonha e medo. Sistema igualitário? Não. 

Abril abriu as portas, como disse o saudoso Ary. O caminho ainda é longo. Caminhemos de cabeça erguida, sem medos.

 

 

Imagem retirada da net.

22
Abr21

A minha filha é um Tornado! Os terríveis 3 e meio!


Vera Garcia

Não sei se este blog se devia chamar A mãe não dorme, A mãe não pára ou A contratada só reclama...seja lá como for ou se for isto tudo ao mesmo tempo, tenho a dizer-vos que gosto da casa de banho. É para lá que fujo de fininho, falo sozinha e digo palavrões à minha vontade, mesmo que a minha liberdade dure escassos minutos...!

Os famosos terríveis  2 anos ou os terríveis 3 anos ou os insuportáveis 4 anos...mas será que existe os calmos qualquer coisa?...a julgar pelo andamento da carruagem, começo a acreditar que não. Hoje, desde que se levantou até se deitar contei à volta de 7 birras, à excepção das horas que passou no jardim de infância. E não foram 7 birras! Foram 7 tornados! 1⁰ tornado ao levantar: não quero tirar a fralda! 2⁰ tornado: não quero essa blusa! 3⁰ tornado depois da escola: não quero ir para casa! 4⁰ tornado: eu quero o pai! 5⁰ tornado: não quero ir ao supermercado! 6⁰ tornado: não quero tomar banho! 7⁰ tornado: não quero jantar!!! E durante os tornados todos, ouviu-se o vento uivar com fortes rajadas afincadas de um "DEIXA-ME EM PAAAZ"!

O furacão chama-se Margarida. Cuidado com este nome. Não se iludam pela sua delicadeza aparente....!

F.........!

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15
Abr21

Fazer anos


Vera Garcia

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Quando somos crianças, fazer anos é uma alegria! Sentimo-nos leves, cheios de mimo, ansiamos pelo bolinho e há esta dicotomia entre sermos mais crescidos, mas tratados como pequeninos...

Fazer anos era ver todos os anos o dia nascer com um sol morninho de Primavera...a avó Lili fazia o Fofinho (aquele doce inventado) e organizava o lanche lá em casa. Assim que chegava o fim de semana, vinham a minha avó Judite, o avô Quintiniano, o tio Catita, a tia Natália que faz anos no mesmo dia que eu e os meus primos Luís e Marisa. Sentavam-se à mesa com a gente, com a minha avó Lili, o avô Chico e a minha tia Cilinha. A mãe fazia o bolo de ananás e as farófias. O pai fazia o almoço.  ...

O tempo passou e o mês de Abril tirou-me as minhas avós. A partir daqui comecei a detestar este dia. Este dia de celebrar a Vida, apenas passou a fazer lembrar-me da morte. O dia de hoje foi estupidamente bipolar. Acordei depressiva. Almocei uma sandes manhosa, sozinha, à beira da estrada. Fiz não sei quantos quilómetros de escola em escola. Acenei aos indianos que me acenavam, enquanto passavam por mim com aqueles passos lânguidos...ao último tempo, tive uma turma que me fez uma grande supresa e os sacanas dos gaiatos puseram-me a chorar! Desgraçados...como eu os quis encher de beijos e abraçá-los mas...não pude. Vim para casa. Tive a minha família e vi a minha filha feliz com os avós, tal como eu um dia fui feliz com os meus. Então, valeu a pena ter-lhe prometido um bolo de chocolate!

Quando fui ler as mensagens de cada um de vós... não há explicação...obrigada ❤ Obrigada!!!

 

13
Abr21

Cantei o fado na aula e gostei 🙄🤦‍♀️


Vera Garcia

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Hoje foi um dia cão! O malvado, estupor, ignóbil do despertador deixou-me dormir quatro horas! Agarrei no volante, estremunhada e com cara de almofada amassada. As minhas olheiras pareciam os socalcos lá do Douro. Enfiei os óculos à Zeca Afonso, que me ficam francamente mal, e lá fui eu piscareta dar aulas. Às oito e meia da matina e, durante uma hora, levei com uma personagem a dizer "cocó" cada vez que eu fazia uma pergunta. Enchi tanto o estômago de ar, que a coisa começou a azedar...e azeda já eu me tinha levantado! As horas seguintes foram de um lado para o outro e, horrivelmente, não me consigo lembrar sequer o que fiz com aquelas turmas!...Finalmente, na última hora de todas, quando o meu cansaço já tinha ultrapassado todas as formas indignas e ridículas, dei por mim a cantar o fado enquanto eles faziam o verbo Have Got! O raio da sala é velha e até faz eco! E não é que a minha loucura era tanta que até gostei de me ouvir? Os "crianços" bateram palmas! E eu bati com as mãos na cabeça! F....

09
Abr21

Mails dos grupos parlamentares


Vera Garcia

Precisamos de TODOS! Estão aqui os mails dos Grupos Parlamentares. Que cada um de nós faça a sua parte! Exponham a vossa situação profissional de forma clara e concisa! Eles têm de ver que nós existimos!

20210409_120949.jpg

 

gp_ps@ps.parlamento.pt,
gp_psd@psd.parlamento.pt,
gp_pp@cds.parlamento.pt,
gabinete@ch.parlamento.pt,
gp_pcp@pcp.parlamento.pt,
gpcds@cds.parlamento.pt,
pancorreio@pan.parlamento.pt,
pev.correio@pev.parlamento.pt,
gabinetejkm@ar.parlamento.pt,
gabinetecr@ar.parlamento.pt

09
Abr21

Por um lugar ao sol, contratados


Vera Garcia

 

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Tenho uma amiga que, em tempos, me disse: "fartei-me dos contratados". Ela foi dirigente sindical com tal afinco que conseguiu dar cabo da vida pessoal toda. Não havia namorado que se aguentasse ao lado de uma mulher em luta constante. Vi-a a ser espezinhada nas redes sociais. Chegaram a chamar-lhe lésbica, só porque defendia os direitos dos homossexuais. Imagine-se...

Muitas vezes chemei-lhe lunática, doida, chata, massacrante com as lutas dela, e era! Eu era tão novata na minha vidinha de professorinha acabadinha de sair da Universidade, que não percebia que a luta dela também era por mim e pelos outros contratados. Percebi isso em 2012 quando, seis anos depois, as injustiças me começaram a bater à porta. Fui com ela para a Assembleia da República e aprendi com ela como funcionam as coisas. Nunca fui dirigente sindical. Pertenci à Fenprof durante pouco mais de um ano e saí. "Por que é que te fartaste dos contratados?", perguntei-lhe eu num desses dias. "Porque ninguém se mexe, ninguém luta pelos seus direitos. As pessoas deixam-se comer e não percebem que quem coloca os deputados lá somos nós. Nós temos o direito de exigir que eles trabalhem e nos oiçam e zelem pelos nossos direitos!". Tinha razão esta minha amiga. Afastou-se desta vida que lhe roubou uma boa parte da vida dela. Hoje escrevi em diversos grupos de professores que devíamos encher as caixas de email de todos os grupos parlamentares com todas as injustiças que vivemos, enquanto professores precários. Vi alguns colegas (poucos) a insistirem no mesmo. A grande maioria lê, reclama e concorda, mas a seguir vai fumar um cigarrinho à varanda e deixa passar. Dá trabalho arquitectar um mail, colocar lá as nossas reivindicações ...mais facilmente perdemos tempo a comentar larachas no facebook.

Tive sorte em escrever para o Com Regras durante uns tempos. Quando li a sua nota de despedida, com ela também foi muita da minha vontade de lutar, reclamar e escrever para as entidades certas. ...

Só queria dizer-vos que, antes de escrever estas linhas, sentei-me ao computador e redigi um email sobre a minha/nossa situação e enviei para todos os grupos parlamentares. Escrevi, com alguém puxar-me as calças e a blusa, a dizer que tinha fome, a dizer que queria uma chupeta na boca e outra na mão, que não queria comer sopa, a atirar bonecos para o chão com as altas fúrias insuportáveis dos 3 anos. Ainda assim, escrevi, enviei, fui-lhe dar o jantar, lavar-lhe os dentes e as mãos e adormecê-la. 

Chegámos a uma altura da nossa vida em que, ou saímos da zona de conforto a pulso, ou comeremos a mesma cepa torta. 

Imagem retirada de:

https://www.google.com/search?q=acordai!&tbm=isch&ved=2ahUKEwju2det5u_vAhUNihoKHcXUAewQ2-cCegQIABAC&oq=acordai!&gs_lcp=ChJtb2JpbGUtZ3dzLXdpei1pbWcQAzICCAAyAggAMgQIABAYMgQIABAYMgQIABAYOgcIIxDqAhAnOgQIIxAnOgQIABBDOgcIABCxAxBDOgUIABCxAzoGCAAQBRAeOgYIABAKEBg6BAgAEA06CAgAEA0QBRAeUNELWKhBYJNPaAZwAHgAgAGDAYgBgAqSAQMzLjmYAQCgAQGwAQXAAQE&sclient=mobile-gws-wiz-img&ei=fJFvYO6rLo2UasWph-AO&bih=647&biw=360&client=ms-android-samsung-gj-rev1&prmd=niv&hl=pt-PT#imgrc=ip73Bdu8U3H0VM

 

01
Abr21

Chamava-se GLicínia...


Vera Garcia

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Em tempos idos, havia conhecido uma senhora tão bondosa, mas tão bondosa, que ousei chamá-la de mãe, no meu pensamento. A minha mãe estava longe. Não é que fosse uma distância inatingível e eu sabia disso, mesmo que ousassem dizer que ver a minha mãe de quinze em quinze dias fosse suficiente...era como se eu estivesse num colégio interno, a ser vinte e quatro horas doutrinada por ideais que não eram os meus. Só nasci de livre vontade porque minha mãe caiu e bateu com a barriga no chão. Nasci revoltada! Desde cedo que me ensinaram a pensar pelas minhas ideias e não pelas dos outros. Desde cedo me ensinaram que a melhor ferramenta que poderia ter para ser independente seriam os estudos superiores. E eu não nasci superior. Eu nasci igual àqueles que nascem do ventre de quem trabalha. Olhava para ela...aquela que era minha mãe na ausência forçada da minha. Olhava para aquela mulher simples, sem estudos, um pouco maltratada pelo trabalho e subjugada aos escrutínios, ideais, vontades e caprichos dos outros, que nela mandavam. E ela via e sentia, a sua ferramenta de trabalho era pesada mas tão necessária para ajudar a manter a sua casa de pé. E então ela via, ouvia e consentia, num baixar de cabeça, fazendo ouvidos moucos...e eu pensava na ferramenta de trabalho que os meus pais, felizmente, me haviam dado. 

Eu sentia-me rica e vazia. Era uma rica sem ser e sem me saber sentir. Chegava a casa tarde e cansada de trabalhar todo o dia tão longe da casa que não era a minha casa. Abria a porta e sentia o perfume daquela casa enorme, limpa, arrumada e imaculada. À hora a que abria a porta da casa que não era minha, via aquela senhora de gatas, esfregando à mão os degraus de mármore branco, brilhantes, daquela escada. Usava uns calções velhos que deixavam ver as pernas cheias de varizes e pintinhas vermelhas da má circulação. Tinha pena dela e sentia vergonha de mim. Nunca tinha tido ninguém a fazer as coisas por mim. A minha mãe ensinou-me a fazê-las desde sempre. Eu era nova. Ela também era mas, àquela hora, eu vi-a vergada pelas dores. "Por favor, deixe tudo, vá para casa descansar", dizia-lhe eu. "Vossemecê tem a sua profissão e chega cansada. Eu tenho a minha. Pronto. Não está tão bonita a casinha? Já tem o jantar orientadinho e temperado. Agora é só pôr a fazer...", e ia dizendo uma enfiada de coisas que já tinha feito por mim, enquanto despia a roupa do trabalho e vestia as calças de ganga e calçava os sapatos.  ...

Um dia, caí da cama, estremunhada, e nasci de novo, porque bati no chão. Levantei-me e abri a janela para a vida e vi que os pássaros voavam lá  longe, e que havia realidades para além daquilo que os meus olhos conseguiam ver. E eu era pássaro de asas atrofiadas, mas que ainda sabia voar...

Abri a porta daquela casa grande que não era minha e parei uns instantes, hesitante. Eram demasiados os grilhões nas minhas mãos, nas minhas pernas! Fechei a porta da casa grande, que não era minha. E hoje, ao varrer o chão da casa que há-de ser a minha, lembrei-me de si, doce (G)licínia.

 

Imagem: Maluda

 

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