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A mãe não dorme

Mãe que não dorme e que vai trabalhar todos os dias com outros filhos, os alunos! Professora contratada, eternamente contratada! Subscrevam o blog e vamo-nos lendo por aqui!

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A mãe não dorme

10
Out20

Aquela estrada...


Vera Garcia

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Sabem quantas vezes já passei nesta estrada, para ir dar aulas? Também não sei, mas já foram muitas. Aos meus colegas professores-camionistas-caixeiros-viajantes, o meu profundo respeito. Quem não sabe, um professor de inglês no primeiro ciclo, para ter um horário minimamente decente que lhe permita pagar contas ao fim do mês tem, em média, 9 turmas. Na maioria dos casos, estas 9 turmas distribuem-se em 5, 6 ou 7 escolas diferentes, que distam umas das outras uns belos pares de quilómetros. Por dia, é frequente fazermos 4 ou 5 escolas. Pegamos no carro, chegamos à escola, damos a aula, metemo-nos no carro outra vez e repetimos o procedimento mais umas 4 vezes. Antes de sairmos de casa, levamos a lancheira, para almoçarmos dentro do carro, debaixo de uma sombra qualquer. E tem de ser assim, para conseguirmos uns minutos de silêncio e de descanso físico e chegarmos a horas a outra escola. No outro dia, levei uma assobiadela de um parvalhão qualquer, que nunca deve ter visto uma mulher sózinha no carro, e ainda me perguntou quanto é que eu levava! E, sinceramente, estava com o carro estacionado no parque de um café e a minha intenção era mesmo beber uma bica! Não obstante, a minha vontade passou a ser esmagar aquela criatura ordinária! Enfim...

Lembro-me daquela manhã de inverno, gelada de fazer retorcer os ossos, em que saí de casa, depois de beber dois cafés seguidos. A noite tinha prometido, como sempre, e eu estava acordada desde as duas da manhã. Era quinta-feira e desde sábado que eu não sabia o que era dormir. Nessa manhã, chuviscava e as escovas do carro limpavam pequenos pedaços de gelo. A estrada é francamente isolada e, antes de chegar a uma das minhas escolas, tem rectas horríveis. Levava a janela do carro escancarada. A minha cabeça ia meio tombada para fora. O rádio ia em altos berros, na M80, como sempre. Mas os meus olhos...esses, teimavam em fechar, apesar do esforço para me manter acordada. Parei o carro mesmo ali. Chovia com mais intensidade, naquele momento. Saí do carro e caminhei à chuva uns bons metros. Nada se ouvia, ninguém passava por ali. Cheguei à escola ensopada mas, pelo menos, não adormeci ao volante. A mãe não dorme, a mãe leva estafas diárias. O meu carro parece um carro de assalto! Lá dentro nascem migalhas de pão, garrafas vazias, lenços e guardanapos, cascas de pêros, embalagens de iogurte vazias, roupa, livros, comprimidos para as dores de cabeça, pastilhas, etc, etc, etc!!!

Esta vida, na estrada do 120, é solitária e incompreendida mas isso, hoje, já não cabe aqui. Sou feliz onde trabalho. Tenho colegas excelentes e já conheço os cantos à casa e com o que conto e com quem conto. E, sinceramente, neste momento, já estou muito dividida entre estas pestinhas minúsculas, que vêm a correr e nos abraçam ou que pedem colo e nos trocam os nomes por mãe e avó, ou os matulões chicos-espertos do secundário!... Vou indo na corrente... é isso!

 

120 - Grupo de Recrutamento de Inglês no 1o Ciclo do Ensino Básico.

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