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A mãe não dorme

Mãe que não dorme e que vai trabalhar todos os dias com outros filhos, os alunos! Professora contratada, eternamente contratada! Subscrevam o blog e vamo-nos lendo por aqui!

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A mãe não dorme

19
Out20

Bullying - quando tu não respeitas a minha sexualidade


Vera Garcia

Eu sou diferente dos outros rapazes. O futebol não me interessa, as brigas e manifestações de testosterona também  não. Tenho preocupações com o meu corpo, não o acho perfeito. Tenho borbulhas na cara, sou exageradamente magro ou gordo, os meus dentes são tortos. Eles olham, gozam. Elas aproximam-se de mim e contam-me coisas que nunca diriam às mães. Eu ouço-as, aconselho-as dentro da nenhuma experiência que tenho. Na atenção que elas procuram, eu sinto-me prestável e, no fundo, quem precisa de atenção sou eu. Lá fora, nos intervalos, é bem pior. Sou a bicha, sou o não sei quantas, um pontapé no rabo, uma cuspidela em cima, outros gestos obscenos. E continuo, com o coração destroçado e a alma amolgada e tenho vergonha, medo, que isto chegue aos ouvidos da minha mãe, do meu pai. Talvez a minha mãe compreendesse que, para mim, é tão natural eu me apaixonar por outro rapaz, como ela se apaixonou pelo meu pai. Mas o meu pai...não, ele nunca iria compreender, nem muito menos aceitar. A vergonha que sentiria no trabalho...os vizinhos, a malta do café! Ele não sabe que eu escondo as borbulhas com a base da mãe, nem que coloco anéis quando saio de casa. Sou um falso feliz, porque me estou sempre a rir e a levantar a moral de toda a gente. Sou um palhaço, um palhaço gay! Sou horrível, um monstro! Quero ser actor! Quero ser modelo! Quero ser um grande empresário! Não posso viver aqui, nunca serei eu. Tenho ânsias de fugir, fugir para sempre, ao que eu sou, ao que eu fui, ao que eu era! ...

Muitas das vezes, a mão que se estende vem da escola, daquele professor que ouve, ajuda no que pode. De repente, neste país, houve partidos políticos, manifestos e petições contra as aulas de cidadania. Pois tenho a dizer que, quando fui directora de turma, de uma turma de 9oano, as minhas aulas de cidadania serviram para que um aluno parasse de ser ostracizado por ser homossexual.

Ajudei, no que pude. Abri mentes, horizontes. Criei responsabilidades para com o outro. Estabeleci limites nas liberdades individuais de cada um. Pararam. Não o tolerei, nem ele tolerou que o ofendessem mais. A coragem foi toda e unicamente dele. Seguiu a sua vida. Enfrentou. Sofreu horrores, é um herói. Nem todos são capazes de o fazer e ninguém tem o direito de julgar. Não julguemos e paremos de falar da sexualidade uns dos outros! Ninguém, absolutamente ninguém tem a ver com isso!

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