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A mãe não dorme

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A mãe não dorme

01
Abr21

Chamava-se GLicínia...


Vera Garcia

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Em tempos idos, havia conhecido uma senhora tão bondosa, mas tão bondosa, que ousei chamá-la de mãe, no meu pensamento. A minha mãe estava longe. Não é que fosse uma distância inatingível e eu sabia disso, mesmo que ousassem dizer que ver a minha mãe de quinze em quinze dias fosse suficiente...era como se eu estivesse num colégio interno, a ser vinte e quatro horas doutrinada por ideais que não eram os meus. Só nasci de livre vontade porque minha mãe caiu e bateu com a barriga no chão. Nasci revoltada! Desde cedo que me ensinaram a pensar pelas minhas ideias e não pelas dos outros. Desde cedo me ensinaram que a melhor ferramenta que poderia ter para ser independente seriam os estudos superiores. E eu não nasci superior. Eu nasci igual àqueles que nascem do ventre de quem trabalha. Olhava para ela...aquela que era minha mãe na ausência forçada da minha. Olhava para aquela mulher simples, sem estudos, um pouco maltratada pelo trabalho e subjugada aos escrutínios, ideais, vontades e caprichos dos outros, que nela mandavam. E ela via e sentia, a sua ferramenta de trabalho era pesada mas tão necessária para ajudar a manter a sua casa de pé. E então ela via, ouvia e consentia, num baixar de cabeça, fazendo ouvidos moucos...e eu pensava na ferramenta de trabalho que os meus pais, felizmente, me haviam dado. 

Eu sentia-me rica e vazia. Era uma rica sem ser e sem me saber sentir. Chegava a casa tarde e cansada de trabalhar todo o dia tão longe da casa que não era a minha casa. Abria a porta e sentia o perfume daquela casa enorme, limpa, arrumada e imaculada. À hora a que abria a porta da casa que não era minha, via aquela senhora de gatas, esfregando à mão os degraus de mármore branco, brilhantes, daquela escada. Usava uns calções velhos que deixavam ver as pernas cheias de varizes e pintinhas vermelhas da má circulação. Tinha pena dela e sentia vergonha de mim. Nunca tinha tido ninguém a fazer as coisas por mim. A minha mãe ensinou-me a fazê-las desde sempre. Eu era nova. Ela também era mas, àquela hora, eu vi-a vergada pelas dores. "Por favor, deixe tudo, vá para casa descansar", dizia-lhe eu. "Vossemecê tem a sua profissão e chega cansada. Eu tenho a minha. Pronto. Não está tão bonita a casinha? Já tem o jantar orientadinho e temperado. Agora é só pôr a fazer...", e ia dizendo uma enfiada de coisas que já tinha feito por mim, enquanto despia a roupa do trabalho e vestia as calças de ganga e calçava os sapatos.  ...

Um dia, caí da cama, estremunhada, e nasci de novo, porque bati no chão. Levantei-me e abri a janela para a vida e vi que os pássaros voavam lá  longe, e que havia realidades para além daquilo que os meus olhos conseguiam ver. E eu era pássaro de asas atrofiadas, mas que ainda sabia voar...

Abri a porta daquela casa grande que não era minha e parei uns instantes, hesitante. Eram demasiados os grilhões nas minhas mãos, nas minhas pernas! Fechei a porta da casa grande, que não era minha. E hoje, ao varrer o chão da casa que há-de ser a minha, lembrei-me de si, doce (G)licínia.

 

Imagem: Maluda

 

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