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A mãe não dorme

Mãe que não dorme e que vai trabalhar todos os dias com outros filhos, os alunos! Professora contratada, eternamente contratada! Subscrevam o blog e vamo-nos lendo por aqui!

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A mãe não dorme

30
Dez20

Convidaste-me para jantar...


Vera Garcia

 

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Lembro-me do dia em que me convidaste para jantar, pela primeira vez. Foi em Évora e estava frio. Não estava certa de nada. Não sei se me apetecia realmente jantar contigo ou se me apetecia apenas ouvir-te ou ver-te e fugir dali para fora. Em vez disso, enchi o peito de ar e tentei engolir o nó na garganta, que o coração em sobressalto teimava em aumentar. Não tinha fome absolutamente nenhuma. Armei-me em forte, afinal era mais velha do que tu e, por conseguinte, mais experiente...subi aquelas escadas estreitas e cheguei lá acima ofegante, tentando controlar a respiração para que não desses pelo cansaço que sentia nesse dia, nem pela dor na perna que me azucrinava, farta de trabalhar que estava. Sentámo-nos na rua, numa esplanada imensa, iluminada por escassas lanternas suspensas nas árvores. Com a biqueira da bota, raspava o chão de tijoleira gasta e irregular, enquanto esperávamos que a rapariga nos viesse atender...apenas o sussurrar das folhas e uma música suave arrastada pelo vento cortava o silêncio constrangedor entre nós. Pediste um vinho tinto com o intuito de quebrares o gelo daquela noite, mas não sabias que eu não gosto de vinho...ainda assim, bebi-o como quem bebe de nariz tapado para não lhe sentir o sabor. Fumaram-se teorias e sonhos que o vinho ajuda a revelar. Pediste um bife com molho especial para os dois...nem sabes que, assim que o cortei, todo o meu estômago se embrulhou ao ver o sangue que saía da carne, espalhando-se e entranhando-se naquele creme de natas. Não quis fazer desfeita, para que não jantasses sozinho ou para que não esperasses por mim, com o teu bife frio como a noite. Mastiguei aquele bocado de carne como se mastigasse toda a minha vida mal embrulhada, num novelo de lã, sem lhe achar a ponta. Deste-me tempo para pensar que aquele não deveria de ser o caminho certo. Achei-te demasiado utópico e sonhador para mim, que já tinha percorrido outros caminhos mais sinuosos do que os teus. Achei-te um bom actor, um bon vivant, meio louco e inconsequente. Bebi o marasmo que a minha vida se havia tornado. Um marasmo demasiado responsável, decente, pesado, vestido de preto...como toda a minha roupa. Com um gesto invasivo e provocador, tiraste-me uma pulseira de cabedal. Tinha duas, iguais. Colocaste-a no teu pulso e, numa atitude imberbe de quinze anos, disseste-me que estaríamos os dois ligados para sempre. Naquele momento, entornaste-me um copo de cores vibrantes, cheiros e sabores de especiarias, empurraste-me para o desconhecido e dei conta que me havia tornado medrosa, cautelosa, exagerada, velha. De repente, dei comigo a correr por entre árvores, arbustos, a tropeçar nas pedras, sozinha, perdida, até ver o sol nascer e a minha imagem reflectida num espelho de água... com vinte anos outra vez. Deste-me uma lufada de ar fresco de um romper da aurora. E, inebriada, dei-te mão, sem estar preparada para enfrentar os ventos de mudança que soprariam na minha direcção. Fechei os olhos e deixei-me ir...continuamos a seguir as setas que nos vão indicando o caminho. Por vezes, enganamo-nos e voltamos atrás e o tempo custa a passar, há impasses...mas na curva, surge o caminho certo e assim continuamos, sem sabermos aonde iremos chegar. Afinal, ensinaste-me que o que conta é a beleza do caminho...

 

 

 

Imagem retirada do Google.

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