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A mãe não dorme

Mãe que não dorme e que vai trabalhar todos os dias com outros filhos, os alunos! Professora contratada, eternamente contratada! Subscrevam o blog e vamo-nos lendo por aqui!

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A mãe não dorme

11
Nov20

Esta gente está a invadir o nosso país! ...


Vera Garcia

Vão lá para o país deles!

Indiana, como tantas indianas e indianos que vão surgindo aos poucos nas nossas terras, nas nossas escolas. Ela tem nome e perfume de flor, de princesa destemida, de lua cheia de luas cheias. Ela tem lindos olhos pretos e o seu cabelo reluzente, da cor das amoras, ondula numa trança entrelaçada de aventuras, desventuras e medo do desconhecido. O corpo miúdo, magro, caminha lentamente em movimento pacífico, passo seguro, cabeça erguida e tudo parece contrastar com o negrume do seu olhar. Despediu-se do seu país, como planta selvagem arrancada do seu solo. Qual o caminho que percorreu, com os seus pais, até chegar a nós, eu desconheço. Naquele dia, aproximei-me dela, como quem se aproxima de um animal assustado. Estendi-lhe as mãos, segurei as suas, dedos pequeninos, magros, desenhados de arabescos. Tremia, de pé, a um canto da sala. Não dizia uma palavra em português. Disse-lhe que falava inglês. Olhou para mim, com uma certa esperança encontrada e disse-me que o coração lhe doía. Tinha saudades dos avós que lá ficaram, naquela Índia tão distante. Tinha saudades da sua casa, da sua rua, do seu país. Tinha fome, porque era vegetariana e ainda ninguém tinha percebido. Lá fora, nos intervalos, ficava sozinha a um canto, olhando para lá da vedação do muro, comendo o pão que a mãe havia feito, com molho de especiarias, cebola e tudo o mais que torce os nossos narizes europeus. Ela cheira mal àquelas coisas! Ela deve comer gafanhotos! Deve ter piolhos! Ouvi de tudo, porque as crianças são cruéis, quando querem...e ela, a indiana com nome de flor e perfume, sem perceber palavra, sentia no seu coração o peso de cada letra proferida, cada som, cada gargalhada. Eu era a professora de inglês e a minha função era claramente outra. A minha função era servir-me do inglês como ponte, elo de ligação e promotor da verdadeira inclusão, a única ferramenta que me permitia quebrar aquela barreira linguística. Desde aquele dia que nunca mais a deixei. Ensinou-me a gastronomia indiana, algumas palavras numa língua tão difícil de pronunciar e eu ensinei-lhe o que era ser português. Passou a ser respeitada pelos seus pares, entendida por nós e aceitou os nossos hábitos e costumes. Fez amigos. Em Março, na semana em que as escolas fecharam, abraçou-me e disse-me "Thank you, teacher, for everything. I Promise I will never forget you". Não, minha princesa com nome de flor e perfume, eu é que nunca te esquecerei. Estava enganada quando pensei que o inglês seria a única coisa que nos aproximaria e que te faria fazer amigos. O verdadeiro caminho para a inclusão e aceitação mútua do que todos somos e de onde viemos é o Amor.

Quando a pobreza e a guerra nos arrancam dos nossos países e somos empurrados para outros mundos distantes, onde nada entendemos, ninguém nos entende e as únicas coisas que temos como certas é o desconhecido, a desconfiança no olhar dos outros e o sujeitar-nos a condições, por vezes, desumanas, pensa...podias ser tu e os teus filhos...

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