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A mãe não dorme

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A mãe não dorme

26
Nov20

Este sistema de ensino que lhes rouba a infância


Vera Garcia

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Hoje dei teste às turmas de 3o e 4os anos. Teste de inglês. Teste. Numa das turmas de 4o ano, a aluna mais ponderada, metódica, educada e descomplicada desatou a fazer uma série de perguntas desnecessárias acerca do que se pedia no enunciado. Ela, problemas de interpretação? Incrível. No entanto, a ela juntaram-se tantos outros e eu, já irritada e sabendo do nível da ficha de avaliação que tinha realizado, respondi num tom pouco simpático. Num ápice, esta criança começou a chorar, soluçando de nervos, tremendo de alto a baixo. Após uma breve conversa, que a acalmou, deixei-a resolver o teste em paz. Teve 100%, como sempre teve.

Ontem, constatei que uma outra criança que frequenta um colégio privado e se encontra no 1o ano, no espaço de uma semana, iria ter teste de Português,  Matemática,  Estudo do Meio, Expressões e Inglês. Teste. Testes. E testes de inglês, que nem sequer curricular é no primeiro e segundo anos. A criança estava aflita e aflita estava a mãe que, depois de sair do trabalho, ainda tinha de ir estudar com ela. Crianças aflitas no público, crianças ainda mais aflitas no privado. Depois de adultas não terão tempo suficiente para andarem aflitas? Que raio de sistema de ensino é este que massacra estes pobres coitados, horas a fio sentados na mesma cadeira, com a exigência pelos resultados? Testes! Eu não me lembro, em tempo algum, de ter estudado desenfreadamente enquanto andava no primeiro ciclo. Quando a professora entendia, punha-nos à frente uma ficha e, numa ou duas manhãs, despachávamos aquilo. Não, eu não era uma aluna exemplar. Tinha na língua portuguesa o meu ponto forte e na matemática a minha desgraça. A minha mãe é professora do 1o Ciclo. Nunca me lembro de se ter sentado ao meu lado, a estudar comigo. A escola acabava à hora de almoço e vinhamos para casa. Brincar, era o que nos fazia bem. Se eu fosse criança, agora, seria uma péssima aluna...ou seria insuportável...ou deprimida. Teria ânsias cada vez que entrasse na sala de aula, trancada lá o dia todo.

Prazer. Aprender por prazer. Ler por prazer. Aprender por curiosidade. Tudo isto contrasta com estatísticas, rankings, competição, sucesso mensurável, testes, resultados, ansiedade, formatação. Imposição. Excesso de alunos por turma. Horas a mais na escola. Obrigatoriedade em frequentar mil e uma actividades fora do horário escolar. Falta de descanso. Estímulo a mais. Menos tempo em família, em casa. Stress. Pergunto-me, ignorantemente, será que esta geração será mais inteligente, mais capaz e mais saudável do que a minha, do que a anterior à minha? Será que a extensão dos programas no primeiro ciclo formarão jovens e adultos super inteligentes? Que tipo de adultos serão as crianças que sentem agora 500 kg de responsabilidades em tirar boas notas, agradar aos pais e professores, não errar, não falhar, pouco dormir e pouco brincar?

Vivo no sistema, porque no sistema sou obrigada a viver. Tenho uma filha. Que tipo de aluna será? Que tipo de mãe serei daqui por uns anos? O que espero dela é que seja educada, tenha juízo e seja responsável. Não quero que seja a melhor. Ofereço-lhe livros, mas não a obrigo a brincar com eles. Eles estão lá, para quando ela quiser. Gostava que fosse uma leitora, por prazer, para que conseguisse ter espírito crítico e livre pensamento. Bem educada e humilde. Também ela será uma filha do sistema...que eu tenha sempre discernimento para a lembrar de que é criança. 

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