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A mãe não dorme

Mãe que não dorme e que vai trabalhar todos os dias com outros filhos, os alunos! Professora contratada, eternamente contratada! Subscrevam o blog e vamo-nos lendo por aqui!

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A mãe não dorme

11
Out20

Os pais mudaram a opinião acerca dos professores


Vera Garcia

Desde o dia doze de março que andei pedindo aos santinhos que o meu computador (comprado há dois anos, caro e em saldos, cuja marca não valeu nada o que prometia) não pifasse, de vez! Entrámos em confinamento obrigatório e as escolas transferiram-se para as casas de cada um de nós, professores e alunos. Surgiu, agora, um estudo que afirma que os pais mudaram a sua opinião acerca dos professores. Tenho para mim que a figura do professor tem sido menosprezada e até gozada de há uns anos para cá. Perdemos autoridade e, em muitos casos, fizemos substituição do papel que caberia às famílias. Ainda assim, fomos aguentando, reclamando mais dentro do que fora de portas, sem esperar muito dos sindicados e, da tutela, muito menos. Porque somos professores e nascemos com uma espécie de gene chamado masoquismo! E, depois, há a perseverança. E sabem por que é que os pais viram o outro lado da moeda? Porque, de repente, os professores tornaram-se seres humanos e reais, com uma vida real e menos hilariante do que se pensava. De repente, os professores também têm filhos, dos pequenos que não dormem, aos graúdos que dão dores de cabeça! De repente, os professores também têm casas para limpar, roupas para passar, almoços e jantares para fazerem, são pais e precisam de estar presentes, dar atenção, conversar, brincar, dar banhos, vestir, calçar, alimentar, e sei lá mais o quê! Tudo isto, que é a vida pessoal de cada um, a multiplicar por cento e tal alunos semanalmente, mais as planificações de aulas, explicações, aulas e envio de tarefas semanais através de plataformas digitais, várias, ao mesmo tempo, correcção de cento e tal trabalhos enviados de volta e gerir as diversas formas de chegar aos alunos que não tiveram meios para se conectarem a esta realidade nova ou que, até tinham meios mas que entraram em abandono escolar pelas diversas razões que todos sabemos. Tudo isto entre um "estão-me a ouvir? Esperem, a ligação está má. Conseguem ver o documento? Percebeste, Zé? Não? Vou voltar atrás. Por favor, se quiserem falar, carreguem ali na mãozinha. Desliguem o vosso som, por favor! Filha, espera, a mãe está aqui com estes meninos numa aula. Olha, anda cá vê-los! Toma um lápis e um papel e faz um desenho à mãe.  Sim, senta aqui na perna da mãe. Ruuuiiiii, vai dar o lanche à miúda! Estou numa reunião, espera lá! Mãeeee, tenho fome! Mãeee, quero ir brincar!!!!.... E depois, quantos de nós ouvimos as notificações dos nossos emails a apitarem à meia noite, uma da manhã e por aí a fora (nove, dez emails diferentes para cada turma)?! Queixámo-nos sim, mas de cansaço, pois sabíamos que mais nada podíamos fazer para continuarmos a nossa função/missão. Compreendemos e louvámos o lado das famílias, que tiveram de acompanhar os filhos nesta reviravolta, que os ajudaram e apoiaram o mais que puderam, quase como se tivessem oito braços e oito cabeças para executarem mil e uma tarefas ao mesmo tempo! Houve uma aprendizagem grande, por parte de todos e diria que, 90% de nós, pais, alunos, professores, estiveram de parabéns. Será que dá para vermos alguma coisa de positivo no que foi feito? Eu penso que sim, sinto que sim. E os professores de Educação Especial e os terapeutas, que poucos falam neles? Eu fui e serei para sempre, orgulhosamente, professora de Educação Especial. Vi tantos colegas que fizeram de TUDO para acompanhar e não deixar morrer um trabalho, que se quer diário, com os seus alunos, muitos deles multideficientes, com paralisia cerebral ou outros problemas associados. Aquelas sessões em directo carregadas de carinho, muita paciência e tempo, todo o tempo, para que aquelas crianças não se sentissem desamparadas por aqueles que eram a sua família de coração, durante o dia, na escola. 

Sabem o que é que os professores sempre quiseram? Um obrigado e respeito. Quando apenas um pai ou um aluno reconhece o nosso trabalho, no universo de cento e tal alunos e pais, para nós, já valeu a pena, não é?

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