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A mãe não dorme

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A mãe não dorme

19
Nov20

Pus o dedo no nariz do vírus e franzi-lhe o sobrolho


Vera Garcia

Imagem retirada da net.

A Kiki veio ao mundo igual ao pai, com o feitio da mãe. Ela é bonita, esperta, obstinada, inteligente, teimosa, perspicaz, muito tímida na primeira hora de contacto, uma espalha-brasas a seguir! Ela não faz amizades facilmente, é desconfiada, franze o sobrolho, como a mãe. É bicho do mato, gosta das galinhas, do cão e de cavar na horta com o avô, cheia de terra até aos joelhos. Manda nas galinhas e no cão, que lhe obedecem fielmente. O que tem de brava, tem de sensível. É extremamente sensível aos livros, histórias e música, desde que nasceu. Muito pouco dada a contactos e amizades com os outros, este vírus quase que a afastaria ainda mais. Eu própria, mãe dela, quase que caía no erro de a afastar, de a proteger, no mais âmago egoísmo de progenitora que protege a cria. Por ser bicho do mato. Por ser desconfiada. Por franzir o sobrolho, como ela. Embora o meu coração saltasse cada vez que uma criança se aproximasse dela, para brincar, quando estoirou esta pandemia e nos encheram a cabeça de medos, controlei-me sempre para nada lhe dizer e deixá-la brincar, naturalmente. Não queria que, aos 3 anos, começasse a viver com medos e aterrorizada. Porque as crianças sentem e percebem tudo. Nós, adultos, é que temos a prepotência de achar que estes seres minúsculos não entendem nada. Erro crasso.

Ontem, ao entrarmos no carro, apareceu a Fafá, com os pais. A Fafá é uma menina lá do bairro, que anda na escola com a Kiki. Em poucos minutos, andavam de mão dada, aos saltinhos, a conversarem, alegremente, no quintal e no meio da rua! A Fafá tem sete meses a mais e é altíssima! A Kiki tem sete meses a menos e é bebecas! A Fafá protege-a, porque se acha uma senhora crescida! A Kiki deixa-se proteger e dá a mão à Fafá porque diz que ela é boazinha e "cuida da Kiki"! No final, a Fafá deu-lhe um beijinho na testa e disseram adeus, até amanhã. São amigas que o bairro juntou, a escola tanto ajudou e o vírus não vence as batalhas todas!

Quantas crianças afectadas psicologicamente por este vírus maldito, que atira as pessoas para os hospitais, outras para os Cuidados Intensivos e a outras lhes provoca pânicos, ansiedades, medo. Quando deixamos que o medo invada a nossa mente, todo o nosso quotidiano fica afectado, as nossas relações com os outros, a nossa linha de pensamento vira-se para dentro e torna-se mesquinha, medrosa. Há muitas crianças a sofrerem de ansiedade, e esse mal é coisa de adultos e não devia ser de crianças! Culpados somos nós, que lhes transmitimos o vírus medo, o vírus mesquinhez, o vírus afastamento. Entupimo-las do que não é saudável e vamos cegamente contra a natureza do ser humano, que nasce puro. Pela minha filha, pus o dedo no nariz do vírus e franzi-lhe o sobrolho!

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