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A mãe não dorme

Mãe que não dorme e que vai trabalhar todos os dias com outros filhos, os alunos! Professora contratada, eternamente contratada! Subscrevam o blog e vamo-nos lendo por aqui!

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A mãe não dorme

13
Nov20

Risquei aquela escola


Vera Garcia

Desde 2008 que não concorro para aquela escola. Haja alguma vantagem em ser contratada. Esta, é uma delas. Foi no ano de 2007 que tive um aluno autista na turma. Sentia-me um bocado perdida e com uma falta de experiência enorme. Sentia que não estava a trabalhar bem e isso dá-me agasturas. Quando isto me acontece, arranjo maneira de me inteirar das coisas, dos problemas e, em vez de desesperar, procuro aprender com quem sabe. Interessei-me por um mundo diferente do meu mas que, também, já era meu. Voltei a estudar. Saía do Barrreiro às seis da tarde e ia para Lisboa, às sextas e sábados tirar o Mestrado em Educação Especial. Assim foi durante um ano e tal, chegar a casa à meia noite. Em 2008 comecei a trabalhar na Educação Especial, pela primeira vez, e numa Unidade de Multideficiência e Surdocegueira Congénita, naquela escola. No mestrado, tive professores geniais, autênticos mestres, que levarei para a vida. No entanto, continuo a achar que não é a teoria, mas sim a prática que nos ensina, a experiência, e a minha era zero. A juntar à inexperiência, uma timidez tremenda que, quando cai nas mãos erradas, é meio caminho andado para a humilhação. A partilhar o mesmo tecto, tinha a coordenadora da Educação Especial, responsável pela Unidade. Mulher a rondar os 50 anos, com muitos anos de experiência na Cerci, muito sensível a estas crianças/jovens, como assim deve de ser. Bipolar, diagnosticada pelo médico. Fazia recusa total em tomar a medicação. Teve episódios muito constrangedores para ela própria, na escola. Tinha em mim, que nada sabia, respeito, admiração e, no fundo, pena. Eu precisava de ajuda, precisava de aprender e, o que consegui, foi sozinha, a observar. Chegava à sala e tudo o que tinha feito com os alunos havia sido rasgado. Os Programas Educativos Individuais e os PIT (utilizando terminologia do Dec. 3/2008) desapareciam ou nunca estavam no armário ou dossier deles. Um dia, quando tocou para o almoço, um dos miúdos utentes, psicótico, quis continuar a ouvir música no computador. Disse-lhe que estava na hora do almoço e que eu ia almoçar na cantina, também. Costumava fazer isso para trabalhar as actividades da vida diária com eles. Num grito e movimento brusco, fui empurrada de costas contra um armário da sala e agarrada pelos braços. QUEM DÁ AS ORDENS AQUI SOU EU! Berrou-me aos ouvidos. Libertei-me dela, com um safanão e as minhas pernas tremiam que nem varas verdes. A partir daqui, comecei a ser perseguida, gozada, humilhada, deixada a falar para as paredes. Meti baixa de uns míseros 12 dias, comecei a tomar victans e coisas do género. ESTAS MESTRADAS...dizia constantemente, em tom sarcástico e arrastado, com um risinho fininho no fim. Claro, fiz queixa na direcção, mas a única resposta que obtive é que, antes de mim, já umas 3 ou 4 contratadas tinham tido o mesmo tratamento. Fiz queixa à Direcção Regional de Educação, que nem resposta me deu. Passou um ano, de total tortura. Ficaram-me aquelas crianças com trissomia 21, psicóse, paralisia cerebral, malformações cerebrais, atrasos graves de desenvolvimento, hiperactividade, uma auxiliar que foi uma mãe, uma equipa de terapeutas novinhas como eu e um professor que me foi avaliar e me deu Muito Bom, na percentagem máxima, pelo trabalho e pelo que eu aguentei. E no final, no dia em que me fui embora, ouvi "Bom dia, mãe", de uma menina com quem batalhei o ano inteiro para dizer estas duas coisas. Disse-me, pela primeira vez, no último dia de aulas. Abraçou-me e nunca mais a vi. Segui, de cabeça erguida até à porta da rua, e nunca mais voltei.

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