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A mãe não dorme

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A mãe não dorme

08
Dez20

Um conto de Natal


Vera Garcia

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Hoje é véspera de Natal. Mariazinha acordou com aquela azáfama típica na cozinha de sua casa, com o cheiro a farófias, a púdim de ovos e bolo de ananás. É Natal e deve de haver prendas escondidas no roupeiro da mãe! E logo, na casa da avó, vai deliciar-se com os brunhóis feitos com aquela abóbora mogango cozida e posta a escorrer dentro de um saco de pano, pingando lentamente durante dias e, finalmente, fritos e polvilhados com açúcar e canela. Era um deleite saboreá-los e sentir  o ligeiro travo a laranja e aguardente, que só a sua avó conseguia! Há couves com bacalhau lá na casa da avó e todos se sentam à mesa, iluminada com aquela lâmpada de luz branca no tecto, branca demais. Todos se servem, o avô sentado à cabeceira da mesa, como bom chefe de família. A avó sentada ao seu lado, servindo primeiro o marido. Todos se sentam à mesa, menos o pai dela. Ficou em casa e ninguém parece notar a sua falta, à excepção da mãe, que não esconde o semblante pesado, magro e cansado. Também Mariazinha está triste e angustiada, embora bem disfarce por detrás daquela alegria inocente das crianças quando é noite de Natal. Todos se sentam à mesa da casa da avó, menos o seu pai, que ficou sozinho. Sozinho na sua casa, que é a casa dela e de sua mãe. Sozinho, porque está doente e ninguém tem paciência para os doentes. Sozinho, porque não se sente bem em rir alegremente e dizer larachas em enorme cavaqueira, porque a força física é tão frágil e a tristeza da doença pesa-lhe no coração. Lá, na cozinha da avó, todos enchem os pratos de couves com bacalhau, camarões fritos, carne de porco à alentejana, os doces que a mãe levou, o bolo de limão fofinho da tia e os brunhóis da avó. Na sala, abre-se a garrafa de vinho do Porto, guardada dentro daquela estante, que quando se abre a porta, deixa sair um aroma delicioso a licores e charutos. Brinda-se e a avó canta! Brinda-se e o avô dormita com as pernas esticadas para a lareira, que crepita em labaredas quentes...a tia vai arrumando a cozinha com a mãe e ela, Mariazinha, sentada num banquinho, entre a avó e o avô, saboreia uma broa de milho... Contrariamente a qualquer criança, aguarda pacientemente a meia noite para abrir as prendas do enxoval, os pijamas e meias e os adorados livros, que a mãe não esquece. Nunca foi pedinchas, porque sempre lhe ensinaram o que custa ter dinheiro para luxos e os luxos foram sempre poucos e ela nunca se importou. O pai...martelava-lhe na cabeça o pai não estar ali. O pai está doente. O pai é doente. Como estará o pai? Será que vomitou outra vez? Estará deitado no sofá? Olhava para a mãe. A mãe parecia impenetrável, inabalável, de uma frieza meio altiva, por vezes. Mas na magreza de um rosto bonito, delicado, fino, sobressaía aquela ruga entre o sobrolho, que parecia adensar-se cada vez mais. A mãe sabia que a avó delirava com o Natal, como se fosse uma criança! Ela ia comprando as prendas às prestações ao longo do ano! Talvez a mãe não quisesse fazer desfeita. Talvez pensasse que seria bom para a Mariazinha sair de casa, daquele ambiente pesado, doente. Talvez a mãe quisesse fugir, respirar, não pensar. Mas pensava. E Marizinha, também. O pai não estava ali. Quando finalmente chegou a casa cheia de sacos com prendas desembrulhadas, encontrou o pai deitado no sofá, tapado com uma manta verde, a ver um programa qualquer na televisão. Na cozinha cheirava àquele chá de ervas pouco agradável que o pai bebia para as más disposições. Abraçou-o e foi-se deitar, com o coração cheio de remorsos e jurando em silêncio que nunca mais o deixaria só. O pai, antes de se recolher, foi ao seu quarto ajeitar-lhe os cobertores, ver se ela estava tapada e dar-lhe um beijo. Mariazinha fingiu estar a dormir. Quando o pai encostou a porta e se foi embora, ela fez o seu único pedido ao Menino Jesus...pediu-Lhe que desse saúde ao seu pai.

E, um dia...fez-se Natal lá em casa.

 

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