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A mãe não dorme

Mãe que não dorme e que vai trabalhar todos os dias com outros filhos, os alunos! Professora contratada, eternamente contratada! Subscrevam o blog e vamo-nos lendo por aqui!

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A mãe não dorme

05
Out20

Violência obstétrica (leiam, se tiverem paciência)


Vera Garcia

Esta história vale o que vale e peço desde já perdão aos pais, especialmente às mães, que passaram por verdadeiros dramas e que, após o nascimento dos filhos, continuam a ser verdadeiros heróis/heroínas, sem baixarem os braços, mesmo quando o desânimo e a desistência se abatem sobre eles. Digo-vos também que só agora tenho a coragem de divulgar o que se passou e não prometo chegar ao fim deste texto sem ir buscar um pacote de lenços. Faço um mea culpa, porque este testemunho deveria ter seguido outros caminhos...mas a força não foi suficiente. Fui fraca. 

A Kiki veio sem ser esperada, assim como tudo na nossa vida surge sem planeamentos, desde que estes pais transnoitados se conheceram. Até ao terceiro mês de gravidez tudo correu normalmente. Primeiro filho. Fiz os exames habituais, tudo com resultados normais. Era seguida no Hospital da Luz. Não vou mencionar nomes, porque agora já não vale a pena. A médica era extremamente simpática e brincalhona, de espírito leve e descomplicada. Nesse ano estava a leccionar inglês nas escolas do 1o ciclo de Montemor-o-Novo. Para completar horário, fiz o mesmo em Vendas Novas e em Setúbal, na Barbosa du Bocage. Quilómetros, muitos. Descanso, zero. Mal tempo tinha para ir à casa de banho, quanto mais. Numa das aulas, prendi o pé na alça de uma mochila, que estava no chão e caí. Bati com o lado direito da barriga no bico das costas de uma cadeira e fiz um hematoma nesse sítio. No mesmo dia tive consulta. Expliquei o sucedido, mostrei a nódoa negra, mas a dita profissional não lhe deu importância e não me fez ecografia. A fila de parturientes estendia-se ao longo da sala de espera e eu já tinha esperado 6 horas para ser atendida. No terceiro mês de gravidez, na consulta habitual e depois da ecografia, a médica disse, zangada, que o meu bebé "deveria estar numa piscina e não numa lata de sardinhas"! O meu líquido amniótico não era o desejável. Era pouco. Fui mandada para casa, em repouso absoluto, com ordem para beber 3 litros de água por dia. Cumpri. Não foi suficiente. Passei a ser confrontada nas consultas com um "Não sei que tipo de mãe é! Não quer que o seu filho nasça?"... Nunca tive vómitos ou outros incómodos habituais. Nessa altura, cada vez que saía das consultas, o Rui tinha de parar o carro para eu vomitar e o meu estado de nervos era preocupante. Esta médica, apesar de tudo, foi minha amiga...fazia serviço de urgência no Hospital Garcia de Orta. Mandou-me lá. Fui atendida às 4 da manhã. Desde as 8 da noite que estava sentada na sala de espera, com uma mala para me internar. Já sabia o que me esperava. Estava grávida de 5 meses, naquele 25 de Abril de 2017. Finalmente, chamaram-me. Mais exames, o líquido com nível 3. Às quatro e meia da manhã, a médica apontou para a minha barriga e exclamou:" Isso aí é para sair! Mais vale agora do que nascer uma criança com graves problemas congénitos, deficiente, portanto"! Estas palavras guardo-as cá dentro. Segura do que me esperava e sentindo-me o trapo/desperdício mais infortunado e miserável do mundo, ousei perguntar-lhe: "Dra., a senhora tem filhos?" - "Não, abortei-os a todos", respondeu-me. Naquele momento, fez-se uma luz ténue na minha cabeça. Ténue e meio obscura. Segui para a ala das desgraçadas como eu, fui posta a soro. Horas depois, às 7 e meia da manhã já estava a fazer mil e uma ecografias. Retiraram-me o soro, deram-me garrafas de água para beber, não podia sair da cama. Perguntei à Dra. que estava de serviço nesse dia quando é que iria ser levada para abortar e como seria, se seria parto provocado. Ela fitou-me, atónita. Deve ser um engano, mas o que está a dizer?, retorquiu aquela, que viria a ser o meu primeiro anjo da guarda. Pediu à enfermeira os resultados das ecos que tinha feito e explicou-me: "Está a ver aqui as pernocas da sua filha? Ela é magrinha e tem as pernas muito compridas, mas é toda proporcional e está aqui a fazer a vidinha dela. O líquido amniótico não é abundante, mas é um 10, e neste momento, é suficiente". Afinal era uma menina! Agarrei-me a ela e chorei desalmadamente e agradeci-lhe pela vida! Ainda me disse que me deixava ir para casa, se eu lhe jurasse que beberia 3 garrafas de litro e meio por dia, sempre no sofá e na cama, porque também podia ver o Goucha lá em casa, em vez de ser ali no hospital! A partir dali, fiz amniocentese e mais não sei quantos exames, todas as semanas, até a Kiki nascer de cesariana, bem de saúde, às 34 semanas, sem ir à incubadora. Passei a ser acompanhada pela equipa do Garcia de Orta e devo-lhes a vida, a minha e a da Kiki. Disse que não iria mencionar nomes. Menti. Dra. Ester, Dra. Antónia Rosa e a menina Enfermeira novinha, estagiária, que cuidou de mim, como um anjo, a Enfermeira Joana Mira. Obrigada para sempre ❤️

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